O segundo setor que mais cresceu na última década foi o verde – e o que temos a ver com isso?

Nos últimos dias mergulhei na leitura do novo relatório do World Economic Forum, Making the Green Transition Work for People and the Economy (2025), e a mensagem é inequívoca: ou colocamos as pessoas no centro da transição verde, ou não haverá transição.

O relatório deixa claro que estamos diante de uma transformação técnica e econômica de grande escala. Setores inteiros vão mudar, modelos de negócio vão desaparecer, outros vão surgir. E, no meio disso tudo, não são as empresas que correm os maiores riscos — somos nós: trabalhadores, cidadãos, eu e você.

Empresas de diversos setores já estão se beneficiando do forte crescimento da economia verde, o segundo setor que mais cresceu na última década. […] A economia verde já alcançou US$ 5 trilhões por ano e está a caminho de ultrapassar US$ 7 trilhões ainda nesta década.¹

Um segundo relatório, intitulado Already a Multi-Trillion-Dollar Market: CEO Guide to Growth in the Green Economy | World Economic Forum também foi lançado e complementa esta escrita e análise. Os números vão bem – os da economia verde – mas quando olha-se em volta, a coisa não vai bem assim…

Por isso, por agora, quero centrar essa conversa no seu custo e impacto material e cotidiano – essa conversa , ainda que indiretamente, trata da transição não apenas ecológica e econômica — mas também de sentido: crise de comunicação, identidade e pertencimento.

Metade da população sequer se sente parte da conversa climática. Não por “negação”, mas porque falamos em abstrações, gráficos e futuros longínquos… enquanto muitas pessoas vivem o aqui-e-agora, a instabilidade concreta, a insegurança diária.

Se continuarmos comunicando a transição como algo distante, técnico e descolado da experiência real das pessoas, vamos seguir falando para metade da humanidade — e alienando a outra metade. Esta reflexão me tomou em grande! Como acadêmica, economista, cientista política sobre crise climática … ufa … me confronto a todo momento com o dilema dos termos, da exemplificação honesta e acessível.

O relatório então aponta quatro dimensões socioeconômicas críticas para que a transição funcione.

  • Transição de empregos: trabalhadores em indústrias em declínio precisam de proteção social, reskilling e acesso a empregos dignos. Caso contrário, a transição será percebida como ameaça, não oportunidade.
  • Custo de vida: políticas climáticas mal desenhadas aumentam preços e reduzem acesso. E quem sente primeiro são as famílias de baixa renda.
  • Acesso desigual: concentração de financiamento, tecnologia e conhecimento cria uma transição a duas velocidades — penalizando especialmente o Sul Global.
  • Acessibilidade financeira – especialmente para quem menos emitiu e mais sofrerá.

obs: você sabia que a direita americana já está debatendo “o perdão das dívidas estudantis” para apoiar financeiramente a transição carregada pela IA? Ou as conversas no norte europeu sobre um salário mínimo universal de base, implementado durante a pandemia de COVID e que resultaram no impacto econômico e social positivo, contrariando as predições de inflação sob novas injeções de renda?

Nenhuma dessas dimensões é apenas técnica — todas são humanas. E é aqui que precisamos ser políticos, no melhor sentido: o de construir a pólis que desejamos. Não temos mais tempo para narrativas “win–win” ou panos quentes. A transição verde só será bem-sucedida se colocar os cidadãos como prioridade absoluta.

A responsabilidade pública, democrática e distributiva precisa estar no centro do debate.

Especialmente porque a desigualdade já determina quem pode — ou não — participar da vida econômica e da própria transição. Mas retomando o link sobre a crise de sentido: a forma como falamos de clima importa.

Se queremos construir uma transição que seja realmente de todos, precisamos:

criar segurança antes de pedir mudança, equilibrar o abstrato com o concreto, valorizar identidades locais, construir relações, não apenas argumentos, dar às pessoas um papel, dignidade e sentido na transição.

A crise climática é também uma crise de dualidade: entre futuro e presente, mudança e estabilidade, global e local. E só seremos capazes de mobilizar recursos, ideias e pessoas quando reconhecermos que diferentes pessoas têm diferentes maneiras de perceber risco, estabilidade e pertencimento. Como bem aponta o texto que me inspirou nessa reflexão: não existe transição se metade das pessoas não se sente parte dela.


Faça o download do relatório aqui

https://reports.weforum.org/docs/WEF_Making_the_Green_Transition_Work_for_People_and_the_Economy_2025.pdf


O Relatório também traz um Framework de Governança para organizações que já entenderam que o futuro é verde. Se quiser continuar essa conversa e entender como essas estratégias de acesso de mercado e impacto socioambiental podem ser aplicadas na sua organização, hub ou projetos de inovação manda um oi em hello@matraverse.com e vamos conversar.

¹Already a Multi-Trillion-Dollar Market: CEO Guide to Growth in the Green Economy | World Economic Forum

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Ellen Carbonari

Co-fundadora, Economista & Pesquisadora ✉️ ellencarbonari@matraverse.com
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