O Nobel, a Inovação e o Crescimento Económico: Mas Que Temos Nós a Ver com Isso? Um Breve Resumo.

Recentemente, foram anunciados os laureados do Prémio Nobel da Economia deste ano: Joel Mokyr, distinguido por “ter identificado os pré-requisitos para o crescimento sustentado através do progresso tecnológico”, e Philippe Aghion e Peter Howitt, reconhecidos pela sua “teoria do crescimento sustentado através da destruição criativa”. Estes contributos, que se complementam, elucidam a forma como as economias avançadas têm conseguido manter elevadas taxas de crescimento económico ao longo dos últimos dois séculos.

A Descolagem do Crescimento Sustentado: O Contributo de Joel Mokyr

Joel Mokyr dedicou-se ao estudo das condições que emergiram e se consolidaram a partir da Revolução Industrial, não existindo antes desse período. Até cerca de 1700, o crescimento económico permanecia estagnado, mesmo perante avanços técnicos significativos. Este ponto de viragem deveu-se, historicamente, à escassez de conhecimento aprofundado sobre o funcionamento e o porquê das técnicas.

O crescimento sustentado foi impulsionado por três pilares essenciais:

  • Sociedade Aberta à Mudança: O Iluminismo propiciou uma transformação cultural que permitiu superar a resistência à tecnologia, muitas vezes imposta por grupos de interesse estabelecidos que viam os seus rendimentos ameaçados.
  • Evolução Conjunta de Ciência e Tecnologia: O Iluminismo Industrial fomentou a expansão de um “conhecimento útil”, estabelecendo ciclos de retroalimentação positiva entre o conhecimento proposicional (ciência) e o conhecimento prescritivo (tecnologia).
  • Competência Mecânica: A capacidade de agentes qualificados para executar e adaptar instruções, aplicando o conhecimento científico no âmbito económico, revelou-se fundamental.

Crescimento através da Destruição Criativa: O Contributo de Aghion e Howitt

Aghion e Howitt concentraram-se no crescimento sustentado dos tempos modernos, descrevendo a inovação como um processo de “destruição criativa” (conceito inspirado em Schumpeter), onde novas tecnologias e produtos substituem os existentes. Este processo manifesta-se de forma disruptiva ao nível microeconómico:

  1. Dinâmica de Mercado e Crescimento: O crescimento implica uma dinâmica contínua de entrada e saída de empresas, bem como a constante realocação de fatores de produção no mercado.
  2. Conflito de Interesses: O valor de uma empresa estabelecida tende a diminuir com o aumento da taxa de destruição criativa, uma vez que uma inovação bem-sucedida aniquila a sua renda económica.
  3. Implicações Políticas: A teoria sugere uma relação potencialmente não monotónica entre concorrência e inovação. A concorrência pode estimular a inovação em empresas com posições equivalentes (o escape competition effect), mas pode desincentivar as empresas que se encontram significativamente atrasadas (o efeito Schumpeteriano).

Implicações para Empresas: Startups, PME’s e Grandes Corporações

As descobertas destes economistas realçam que o crescimento é intrinsecamente ligado à rutura constante, exigindo uma perspetiva dinâmica face à inovação e à concorrência.

A Ameaça e a Oportunidade da Destruição Criativa: O crescimento contínuo advém de um processo altamente disruptivo. A inovação é caracterizada como um “roubo de negócios”, onde o valor gerado por uma nova inovação é, em parte, obtido à custa de um concorrente. Isto representa um risco existencial para as empresas estabelecidas (incumbentes), cujo valor decresce com a taxa de inovação que enfrentam. As empresas operam num ambiente de elevado dinamismo e de contínua realocação de fatores de produção.

Estratégia de Inovação e Concorrência – As investigações fornecem perspetivas valiosas sobre como a concorrência influencia os incentivos para o investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D):

  1. Incentivo para “Escapar”: Empresas que se encontram “lado a lado” com os seus concorrentes têm um incentivo particularmente elevado para inovar, procurando assim escapar à concorrência e assegurar a liderança (escape competition effect).
  2. Desincentivo para “Atrasados”: Empresas com um atraso significativo podem ser desencorajadas a inovar se a concorrência for demasiado intensa (efeito Schumpeteriano).
  3. Lobbying contra a Mudança: Dada a ameaça da destruição criativa, as empresas estabelecidas têm um forte incentivo para influenciar políticas que dificultem a entrada ou a atividade de I&D dos concorrentes, bloqueando o processo de mudança tecnológica.

A Importância do Conhecimento e da Mão de Obra Qualificada

O trabalho de Mokyr sublinha a relevância do capital humano:

  1. Ligação Ciência-Prática: As empresas devem promover um ciclo de retroalimentação positiva, onde as novas descobertas científicas informam e impulsionam as aplicações práticas.
  2. Competência Mecânica e Implementação: É crucial dispor de mão de obra altamente qualificada — os “adaptadores” e implementadores — que possuam a competência técnica para traduzir o conhecimento científico em aplicações económicas utilizáveis.

Implicações Sociais e Políticas

Este quadro teórico possui vastas implicações sociais e políticas, englobando riscos, desafios e oportunidades cruciais para a governação e o bem-estar social.

Conflito Social e Resistência Tecnológica: O processo de destruição criativa inevitavelmente gera perdedores. A resistência surge de grupos cujos ativos são ameaçados pelas novas invenções. O bloqueio político por parte de interesses instalados pode originar uma oposição feroz à mudança tecnológica. O crescimento e o progresso tecnológico nem sempre resultam num aumento do bem-estar geral, podendo, para alguns, significar mais sofrimento.

Desafios do Mercado de Trabalho e Desemprego: O elevado dinamismo implica um processo contínuo de entrada, saída e reafectação de fatores de produção, o que se traduz em maior instabilidade laboral. A atual vaga de mudança tecnológica, impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), conduzirá a ajustes estruturais significativos e a muitos “perdedores”, pelo menos no curto prazo.

Riscos Ambientais e de Sustentabilidade: É fundamental distinguir que crescimento sustentado não é sinónimo de crescimento sustentável. As externalidades negativas da produção crescente impõem sérias pressões sobre o planeta. As principais preocupações prendem-se com a transição ambiental e a forma de conciliar o crescimento económico com os limites físicos impostos pelos recursos naturais finitos.

Concentração de Mercado e Regulação: Tendências macroeconómicas recentes indicam um abrandamento do crescimento da produtividade, que pode estar associado ao aumento do poder de mercado e à concentração empresarial. O dilema regulatório reside em como regular empresas dominantes sem prejudicar o progresso tecnológico que estas geram.

Esclarecimento Necessário: Crescimento Sustentado não é Crescimento Sustentável

É importante clarificar que o Crescimento Sustentado refere-se à capacidade de uma economia manter taxas elevadas de crescimento por um longo período, impulsionadas pelo progresso tecnológico e pela inovação. É uma característica histórica e económica. Por outro lado, o Crescimento Sustentável é um conceito que integra a preocupação com os limites físicos e ambientais, visando assegurar que o crescimento económico possa ser mantido sem comprometer o ambiente para as gerações futuras.

O grande desafio que se nos apresenta é determinar se o crescimento sustentado, impulsionado pela destruição criativa, é ou não sustentável a longo prazo. No entanto, essa será uma questão para explorar num próximo texto.


Neste contexto, qualquer empresa pode ser incumbent, a que será destruída, ou o new entrant que irá inovar. Na MATRA traduzimos estes quadros teóricos em Estratégia de Negócio. Se a sua prioridade é garantir que a sua empresa seja o agente da inovação e não a vítima da destruição criativa, vamos continuar essa conversa! Siga a página da MATRA para não perder os próximos insights sobre inovação, economia e estratégia.

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Rui Peixoto Lira

Co-fundador, Designer Estratégico & Pesquisador
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