A COP Belém chegou ao fim. E, como todo carnaval, a quarta-feira de cinzas traz aquela ressaca física e moral: o que foi feito, o que poderia ter sido feito, os encontros improváveis… e o que isso tudo produz no nosso imaginário para o ano que segue.
Uso “fantasia” aqui como alegoria ao que venho estudando na minha dissertação de mestrado: as múltiplas visões de mundo sobre o mundo. As diferentes leituras da “crise climática” e dos “sonhos de futuro possível” que emergem de cada território, de cada memória, de cada historiografia.
Na filosofia política, chamamos a isso de epistemologia: o estudo dos sistemas de conhecimento, suas origens, limites e validade. Desde Platão até Foucault, a pergunta permanece:
- Como distinguimos as ideias verdadeiras das falsas?
- E de onde vem a legitimidade do conhecimento que usamos para guiar nossas ações?
No enfrentamento de uma crise global — e existencial — como a climática, uma única episteme nunca será suficiente. A superfície terrestre aqueceu cerca de 1,2°C desde a Revolução Industrial (IPCC, 2023). Eventos extremos já deslocam mais de 20 milhões de pessoas por ano (UNHCR). E estima-se que, até 2030, o impacto das mudanças climáticas pode empurrar até 132 milhões de pessoas para a pobreza (Banco Mundial).

A escala deste desafio ultrapassa qualquer fronteira disciplinar, política ou geográfica.
A inovação mais necessária é a humana, afinal! Precisamos que cientistas do Sistema Terra, povos indígenas, inovadores de mercado e decisores públicos compartilhem uma mesa e tenham igual capacidade de fala e escuta; necessitamos que quem projeta futuros tecnológicos considere as emergências que já batem à porta: inundações, incêndios, refugiados climáticos, transformações no trabalho diante da IA – pressupondo que ética e justiça sejam imperativos partilhados, claro.
O que precisamos é profundamente inovador — e, ao mesmo tempo, profundamente ancestral: a capacidade de colaborar globalmente, de forma coordenada, sem apagar a força das insurgências locais.
Cada povo conhece as tecnologias materiais e sociais que melhor respondem às suas necessidades. É exatamente isso que investigo a partir da Nobel de Economia Elinor Ostrom– o que sustenta a base da governança climática: soluções locais e descentralizadas, articuladas em ações coletivas capazes de sustentar – preservar, restaurar e incluir nas contas econômicas – os bens comuns globais (oceanos, florestas em pé, clima estável).
A COP sempre abre um universo de reflexões. Um universo que deveria ser de todos, mas que segue injustamente restrito àqueles capazes de aportar recursos para lá estar — influenciando decisões que moldam o futuro coletivo.
Nos próximos artigos, quero desdobrar essa conversa, começando pela interseção de dois temas que atravessam minha trajetória: a inovação e a natureza: A IA e a disputa pelos recursos fundamentais — como água e terra —, e o próprio sistema de conhecimento, que pela primeira vez na história pode deixar de ser exclusivamente humano.

